Para aqueles que foram alforriados, devo dizer que esta
minha história não é para ser comovente, mas apenas tocar
em vossos corações para que percebam que existe um mundo
a ser vivido.
Me recordo, com muita tristeza nos meus tempos de escravo.
Como escravo, as vezes damos a sorte de ter bons coronéis,
mas... não escolhemos nosso caminho, e acabamos nas mãos
de coronéis cruéis e sem coração, que diante da vossa
sociedade são pessoas exemplares, devotos de Santos,
freqüentam igrejas, e quem diria, fazem até caridade.
É um descompasso dizer que essa mesma pessoa consegue
ser o mesmo coronel que levanta chicotes e nos marcam
pelo resto de nossas vidas, mas é a vida daquele que foi
comprado pela necessidade e pelo próprio enfraquecimento.
Mas, ainda sendo escravo, digo que DEUS é bom e existe.
Então, sendo eu escravo, no dia de minha alforria, me
surpreendo com o filho do coronel trocando os cadeados das
dependências da fazenda, e sendo eu responsável por tantas
coisas de valor. Estranhei, mas me silenciei, afinal,
escravos não têm o direito de falar, rir, dançar, pois
qualquer demonstração de alegria é apenas o prenúncio que
os coronéis e seus capatazes não estão sendo cruéis o
suficiente, mas a Lei Áurea havia sido assinada, e seria uma
questão de tempo para eu me ver livre daquele tronco maldito.
Para minha surpresa, ainda havia muito trabalho a fazer, e
os coronéis foram obrigados a adiar minha liberdade
devolvendo os cadeados. Essa atitude de trancafiar tudo
antes de um escravo ser libertado, é típico de pessoas
mesquinhas, pequenas e devedoras, porque nelas, mora o medo
do peso da mão da justiça, da mão de DEUS, como se em um
único dia, no dia da minha liberdade, eu iria estar
interessado nas migalhas que caíram ao chão.
Mal sabem os coronéis que se eu tivesse que pegar algo, teria
o feito nas tantas vezes que foram a passeio para a Capital,
pois as portas e portões ficaram aos meus cuidados o tempo
todo.
Por fim, sem mais o que fazer, me alforriaram, e devo dizer
que a carta de alforria me trouxe não somente a liberdade,
mas me devolveu a inspiração por tempos perdida, me trouxe
de volta a vida, o desejo de ir mais além, e saber que não
preciso mais ser escravizado para sobreviver.
Agora, junto dos que me amam, que vibram comigo lendo
minha carta de alforria, devo apenas dizer que minha arma
nunca foi a arma dos coronéis, que minha arma tem alcance
surpreendente, que o tempo mostrou que ela é capaz de
derrubar presidentes, bispos, papas, delegados, bandidos.
Para ficarmos em pé, precisamos de um milhão de palavras,
mas para derrubar, uma palavra basta.
Me recordo que os coronéis diziam que só podíamos comer
mangas, porque se tomássemos leite, morreríamos.
Só tenho uma coisa a dizer:
"A partir desse momento quero todo o leite que fiz jus e
tenho direito, pois, somente os escravos sabem onde os
coronéis mandaram esconder suas riquezas."
Ass. Um alforriado feliz.




1 Comentário:
Bota p/ quebrar!
Parabéns a liberdade realmente é algo que se conquista
abs
obs.: Além de todo o leite que tens direito não esquece as mangas rs
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